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Quando um “ato de loucura” foi a melhor decisão… Quando se luta uma vida por um sonho, se acalenta o desejo de o ver funcionar todos os dias mas uma fatalidade deita tudo por terra, recuperar torna-se, muitas vezes, insustentável e impossível.

Não foi o que aconteceu na localidade de Pinheiro Bordalo, freguesia de Graça, concelho de Pedrógão Grande.
Em 2017, a voracidade das chamas consumiu tudo o que encontrou pela frente. Deixou sem sustento muitas famílias. Reduziu a cinzas muitos sonhos e muitas lutas de vida. Aconteceu também no seio da família de Nelson Pereira. Naquele 17 de junho de 2017 as chamas entraram dentro do lagar de Pinheiro Bordalo e deixaram apenas escombros. “Nunca esquecemos aqueles momentos de angústia”, recorda, ano e meio depois, Nelson Pereira que ficou até à última para tentar salvar alguma coisa.
Manuela Pereira, a mulher estava em casa da mãe quando tudo aconteceu enquanto o marido, longe, tentava salvar o que conseguia.
“Quando cá cheguei a porta escorria azeite e tive que rebentar com ela para retirar as viaturas. Estava tudo a arder e tive que fugir por causas das partículas. Já não tinha ar para respirar”, recorda o proprietário. Dentro do recinto do lagar havia máquinas e viaturas, muito dinheiro investido, por isso ainda entrou novamente. Com a pele demasiado quente, sentindo o calor a queimá-la e com a ajuda de uma toalha molhada, retirou as chaves e consequentemente os veículos que lá tinha. Fez um esforço até à última réstia de respiração. Salvou o que conseguiu. Depois de retirar as viaturas “já não havia mais nada a fazer. Encostei-me ali. Sentia-me super impotente”.

O que conseguira ao longo da vida estava agora demolido, partido, destruído pelas chamas. “Ao fim de 40 anos de trabalho não é fácil. Uma pessoa que tanto se dedicou a esta atividade e ver tudo destruído, é um bocado complicado”, recorda.
Os momentos não se esquecem. Manuela tem tudo gravado na alma. “Depois de isto ir abaixo senti-me destroçada e ainda estou. Não consigo ainda ouvir uma sirene e quando oiço fico dentro de casa”. “Tínhamos isto a arder em toda a volta. Em meia hora ardeu o trabalho de uma vida inteira”, insiste, como se nunca mais fosse possível o passado desaparecer dos dias presentes.

A recuperação material e psicológica

Depois da tragédia, os dias nunca mais foram os mesmos. Um sentimento tinha também ardido e dificilmente a vida seria a mesma. Em cima da mesa colocaram-se então duas hipóteses, ou reconstruir ou destruir tudo, “mas ele começou a ficar doente, vivia isto, era dele desde pequeno”, lembra Manuela.

Seguiram-se dias de ponderação e, como que num “ato de loucura, porque só os loucos é que fazem uma coisa destas”, concordou Manuela, deitaram mãos a reerguer o sonho. “Vamos conseguir e se ficarmos com empréstimo ficamos, logo se há-de ver”, recorda palavras de então. E assim aconteceu, “Há 17 meses que lutamos por reerguer isto. É uma questão de orgulho, nem é de lucro, é um sentimento. Já cá estava. Cá fica”, refere.
Nelson concorda que “foi difícil suportar todas as tarefas” no recolocar a casa a trabalhar, mas “cada dia que surgia era um dia”. Ao longo deste caminho teve algumas ajudas mas, “estou à espera do final”. Nestes entretantos teve que avançar com algum dinheiro caso contrário “era difícil estar a trabalhar”, garante. O equipamento que ardeu “já era bom”, confessa Nelson, mas o de agora “é mais moderno”, aceita.
O lagar reabriu ao público na campanha da azeitona deste ano. A laboração está a 50% porque também a safra deste ano é menor, mas “a qualidade é boa”, garante. O ano trouxe pouca azeitona e também grande parte da área de olival que ardeu ainda não está a produzir. Apesar de tudo a “campanha deste ano está a correr normal”, disse o proprietário, esperando contudo que “nos próximos anos as produções cresçam. Os agricultores estão motivados a produzir”, sustenta.

Clientela está garantida

Os clientes mantiveram-se. Alguns são novos e vêm de vários pontos da região centro e também de outros concelhos. “Este ano os clientes estão a dizer que as instalações estão melhores. Com a desgraça nem tudo por ser mau”, considera Manuela Pereira, dizendo igualmente que “ vão satisfeitos e nós também ficamos”.
Para atestar estas palavras está Fátima Ferreira. Vem de Moita, concelho de Castanheira de Pera e é a segunda vez que mói este ano. Já era cliente e continuará a sê-lo. “Costumo vir cá todos os anos, tirando o ano passado porque ardeu”. Fátima sai satisfeita deste lugar, até porque “o azeite sai bom”, diz.
Para António Fernandes é a primeira vez, este ano. Vem de Pampilhosa da Serra e ainda virá, pelo menos mais uma vez nesta campanha. Foi conhecedor da luta de Nelson e de Manuela a quem deu os parabéns pela coragem que tiveram em recuperar o espaço. “Não há melhor azeite do que este”, garante, realçando ainda a “hospitalidade” dos proprietários, é que, “para além de levar o azeite, levo também a amizade deles”, aponta.
Mais do que suportado nesta amizade, este produtor assenta o seu pensamento na realidade dos factos e critica o Governo. No seu entender, o Estado “tem por obrigação subsidiar em 80/90% estas pessoas, porque necessitam de ir mais além”. António Fernandes quebra o protocolo, se é que ele existe nestas conversas, para revelar uma conversa que teve, há uns dias com Nelson Pereira em que este desabafou que reerguer o lagar “fica muito caro” e que para conseguir acabar a obra teria que vender alguma coisa que tinha. “Até chorei”, revela António Fernandes. “O Governo tem por obrigação de olhar mais e melhor para isto”, alerta.

Quem ali parou pela primeira vez foi Américo Nunes. Vem de Aldeia Fundeira da Ribeira, no concelho da Sertã. Confessa ter adorado e promete voltar noutro ano já que no ano passado não foi possível pois estava destruído. Dali leva a certeza de que “o azeite é bom”.
A modernidade que se começou a verificar há uns anos na laboração dos lagares é vista com bons olhos por António Silva. Agora com 91 anos já ali trabalhou como lagareiro durante seis, “ainda no tempo da varinha na tarefa e das prensas”, recorda. No seu tempo o trabalho era mais pesado. “Apanhei muito calor e perdi muitas noites mas não estou arrependido por isso”. O seu gosto por este espaço mantém-se apesar das transformações. “Nunca tinha visto nada igual”, diz, vincando que “tenho muito gosto em ver o que o sr. Nelson recuperou”.

Área de convívio é novidade

O que as anteriores instalações não tinham e que os proprietários consideraram importante ter neste novo espaço foi uma área social. “Criámos um espaço social para as pessoas conviverem porque é importante, é uma tradição e há que mantê-la”, disse Manuela Pereira.

Estes são espaços com história, onde as tibornas faziam as delícias dos produtores que, aproveitando azeite novo, regavam o bacalhau que era assado nas brasas da fogueira do lagar. A industrialização retirou algum desse espírito mas apesar das máquinas terem tornado tudo mais rápido, “ainda continuam a fazer as suas tibornas e as bacalhoadas para provar o azeite novo com esse sabor característico. É fundamental fazer essas bacalhoadas para provar o azeite novo”, reforça o proprietário.
Trabalhar em Pinheiro Bordalo é como estar em família e Manuela acredita que “os funcionários gostam de aqui trabalhar. O operador de máquinas, que já aqui está há alguns anos ajudou na recuperação e foi também o entusiasmo dos funcionários que nos levaram a ter forças para recuperar isto”, elogia.
No fim de contas, e com a campanha a decorrer dentro do normal, os proprietários reforçam que é sempre bom “deixar algum património”.
Este denominado “ato de loucura”, é assim recompensado pelos clientes que ficam felizes quando chegam. “Por isso já valeu a pena. Não estamos a fazer contas este ano. Se der para as despesas já é muito bom”. Vale, na conclusão de tudo, “o gosto de ver as pessoas, de ver que estão satisfeitos, isso dá um certo reconforto”, finaliza Manuela Pereira.


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