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Neste, como noutros momentos, o que nos irá qualificar é a resposta equilibrada, responsável e solidária que conseguiremos dar enquanto indivíduos e enquanto sociedade.

A sociologia dos anos oitenta do século vinte estabeleceu o conceito de sociedade de risco. Segundo o sociólogo alemão Ulrich Beck, o elemento mais estruturante da sociedade do nosso tempo é a noção de risco. O desenvolvimento científico e industrial e o nosso modelo económico são as principais fontes de risco, e o risco ecológico é, para Ulrich Beck, o mais premente.
Na verdade, a par do risco ecológico, fomos tomando consciência, nas últimas décadas, de outros riscos que transformaram a nossa forma de viver em sociedade.
Todavia, mais do que o risco real, o risco socialmente impactante é o risco percebido. O risco de guerra nuclear esteve muito presente durante o período da guerra fria. Hoje não é menos importante, (continuam a existir no planeta armas nucleares suficientes para destruir várias vezes a humanidade), mas estando afastado das agendas dos meios de comunicação, deixou de ser sentido como risco iminente. Há pouco menos de vinte anos, com o ataque às torres gémeas de Nova Iorque, e com os atentados que se sucederam em várias capitais europeias, emergiu a ameaça do terrorismo. Hoje, este risco, que continua presente na realidade, dissipou-se um pouco na nossa perceção. Os riscos de desemprego e pobreza estão sempre presentes, numa economia demasiado volúvel, mas são mais percetíveis em certas épocas precisas.
Temos de ter a noção de que sempre vivemos com o risco. O mundo não é um lugar seguro.
Hoje, a sociedade descobre um risco novo: o risco de contágio à escala global por um agente infecioso, capaz de por em causa a nossa saúde, os nossos hábitos, o nosso bem-estar material. Na verdade, este risco sempre existiu.

Desde os tempos mais remotos que a humanidade é sujeita a diferentes tipos de pandemias. Só para lembrar alguns exemplos, a peste negra, no século XIV terá matado cerca de um terço da população da Europa, em apenas cinco anos. Há cem anos, a gripe “pneumónica”, infetou 500 milhões de pessoas (um quarto da população mundial na altura), em dois anos, e deixou um rasto de dezenas de milhões de mortes pelo mundo. Mais recentemente, fomos registando episódios não tão graves (“Gripe das Aves”, em 1997; SARS em 2003; Gripe A, em 2009), mas que já deixavam antever o que poderia acontecer com um agente infecioso com uma maior capacidade de contágio.
Mas esta pandemia de COVID-19 é diferente para nós. Desta vez não “ouvimos dizer”, não lemos nos livros de História. Passa-se mesmo connosco, ameaça-nos a nós e às nossas famílias. Avança sobre nós como um exército negro em marcha, ao ritmo das mortes comunicadas dia-a-dia na televisão e nas redes sociais.
A globalização acentuou o risco de pandemia. Com sete mil milhões de pessoas a andar de um lado para o outro, é impossível conter geograficamente um vírus altamente contagioso. A não ser que o mundo pare. Foi o que tentámos fazer, nas últimas semanas. Contudo, se o mundo parar, não podemos continuar a viver as nossas vidas, tal como as conhecemos. O nosso bem-estar material depende do desempenho da economia. O nosso estilo de vida depende da possibilidade de nos deslocarmos ou de estarmos juntos. Estamos, assim, perante um enorme dilema.

Tentámos, e estamos a tentar, conter o vírus. Não podíamos deixar que os contágios subissem exponencialmente. Não podíamos perder o controlo da situação. Somos uma sociedade solidária e queremos salvar vidas. Não conhecíamos bem o vírus, não sabíamos como se propagava, não sabíamos como combatê-lo, não sabíamos se estávamos preparados, não sabíamos se o nosso Sistema Nacional de Saúde e a nossa Proteção Civil aguentavam o embate. Hoje, ainda não sabemos tudo sobre a COVID-19, mas sabemos um pouco mais. Aprendemos a defender-nos melhor, preparámos meios de combate. Não quero com isto dizer que não podemos ter surpresas, no futuro. 
Ainda não conhecemos a fundo este vírus a que chamámos SARS-CoV-2, nem a forma de o combater. Mas sentimo-nos hoje um pouco mais confiantes.
Agora que nos preparamos para sair, pouco a pouco, do estado de confinamento em que temos vivido, e que já se fala no regresso à normalidade, temos de entender que a normalidade a que se regressa depois de um período de risco tão intensamente vivido nunca é a mesma normalidade. Depois dos atentados terroristas no mundo ocidental, a rotina nos aeroportos alterou-se para sempre, e a reação das pessoas a uma mochila abandonada num passeio nunca mais será a mesma. A SIDA alterou profundamente os comportamentos sexuais. A noção de risco ambiental vem alterando (lentamente) os nossos comportamentos e os nossos padrões de consumo. Também a COVID-19 irá trazer alterações irreversíveis na nossa forma de viver. Sobretudo enquanto não houver vacina, teremos de ter cuidados redobrados.

Provavelmente, vamos usar máscara em muitas situações e vamos achar isso um pouco estranho. Vamos medir muitas vezes a temperatura. Teremos de evitar contactos sociais desnecessários, e manter alguma distância entre nós. Vamos ter de continuar a proteger os mais idosos e outros grupos de risco. As escolas, as fábricas, os cafés e restaurantes, os pequenos comércios ficarão diferentes. A nossa vida ficará diferente.

Não vamos acabar com o SARS-CoV-2, pelo menos para já, assim como não acabámos com outros vírus da gripe, com o vírus da imunodeficiência humana (HIV), ou com o vírus Ébola, só para dar alguns exemplos. É preciso “retomar a vida do dia-a-dia, convivendo com o novo coronavírus”, como afirmou o Primeiro-ministro António Costa. Será uma fase difícil. É até muito provável que o número de contágios venha a subir. Teremos de compreender, uma vez mais, que vivemos numa sociedade de risco e teremos de agir em conformidade. O melhor que conseguiremos será encontrar uma forma equilibrada de gerir o risco. De um lado, o risco para a nossa saúde, a dos nossos familiares, e a da nossa comunidade; do outro lado, a necessidade de vivermos as nossas vidas, numa sociedade e numa economia do século vinte e um. Neste, como noutros momentos, o que nos irá qualificar é a resposta equilibrada, responsável e solidária que conseguiremos dar enquanto indivíduos e enquanto sociedade.
O risco sempre existiu e continuará a existir, sob várias formas. É na resposta ao risco que a sociedade se organiza, diria Ulrich Beck. É neste equilíbrio responsável, digo eu, que a sociedade se fortalece e avança.

Carlos Miranda – Presidente da Comissão Política Concelhia do Partido Socialista (PS) da Sertã  e vereador do PS na Câmara Municipal da Sertã

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