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O gosto pela informática vem desde cedo. A vontade de arriscar também. Aos 50 anos o cernachense Fernando Amaral continua a desbravar caminhos pelo mundo fora e a elevar o trabalho do Grupo Sendys, que está a comemorar 35 anos de vida.

Rádio Condestável (RC) - Quando era novo via-se com 50 anos sentado a uma secretária a gerir um grupo de empresas suas?
Fernando Amaral (FA) Acho que não até porque tive uma juventude um pouco atribulada, era um miúdo com muito movimento e muitas ideias.

RC – Quando surge o ‘bichinho’ dos computadores?
FA – Aos 15, 16 anos, quando fui para Lisboa para estudar Direito. Estudava de noite e trabalhava de dia, mas nunca cheguei a acabar porque, ainda aqui em Cernache, já era uma coisa que me motivava. Na altura quando comecei a fazer algumas coisas era das poucas pessoas na zona que sabiam de informática e isso também foi um incentivo para querer melhorar e avançar, daí ter ido para Lisboa.

RC – Mas era um saber muito empírico!
FA Sim, muito. Hoje há internet e telemóvel. Vivíamos num tempo de telexs e faxs e, poucos anos antes da informática, o telefone de casa era o 13. Atendia uma operadora a quem pedíamos para ligar, por exemplo, ao nosso tio. Isto há 40 anos e parece que estamos a falar do século XIV.


RC – E hoje, como está a Internet?
FA - Hoje não conseguimos viver sem um telemóvel, uma APP, o tripadvisor (...) A informática está para agora como estaria o multibanco, há uns anos atrás, para as pessoas. Quem não souber usar um multibanco é um analfabeto.

RC – Dentro de anos surgirão profissões que não imaginamos. Isso vai possibilitar novas áreas de negócio?
FA Hoje tenho um emprego em algo que nunca tive formação ou estudei. Em 1988 não existia um web designer. Da mesma forma que perspetivamos o futuro, com imensas profissões que ainda não existem, hoje também há profissões que há 30 anos não se imaginavam, até porque as lógicas de fazer algo são diferentes. Por exemplo, os fotógrafos de casamentos de há uns anos nada têm a ver com os de hoje, que têm drones, é tudo online e não precisam ir ao estúdio pois têm tudo no portátil e se forem mais organizados até têm uma impressora e a pessoa leva logo a fotografia.

RC – As empresas da Sendys estão viradas para que área de negócio?
FA Todos dizemos que vendemos tecnologia mas o que se vende são serviços. O nome Sendys tem origem em duas palavras, ou seja: sempre disponíveis. Embora sejamos empresas tecnológicas, (o ano passado fizemos projetos em 90 países, em quatro continentes diferente) estamos a vender tecnologia mas sempre através de serviços. No nosso caso diz-se que a tecnologia é fundamental mas as pessoas que fazem a sua entrega também são cada vez mais importantes e cada vez mais difíceis de encontrar.

RC – Este mercado tem falta de pessoas?
FA Nós estamos sempre à procura de pessoas e todos os meses entram. Hoje em dia as pessoas mudaram. Os miúdos não se pegam hoje ao trabalho como nós ou os nossos pais. Quando vão trabalhar para um sítio, têm a perfeita consciência de que não vão trabalhar lá para o resto da vida e a rotação de pessoas é muito maior. Um miúdo hoje, com cartão de cidadão, tem acesso a todos os países da Comunidade Europeia. Precisarmos de mais pessoas tem a ver com o avanço brutal que as tecnologias têm na nossa vida e por isso as empresas estão sempre a precisar de pessoas. Esta nova geração de carros que está a sair, daqui a 15 anos, quando tiver que ir a uma oficina vai a um programador ou a um mecânico? Se calhar a um programador, pois de mecânica já não tem nada.

RC – Recrutam muitas pessoas desta zona!
FA A zona de Cernache do Bonjardim é uma zona privilegiada que usamos para fazer recrutamento, pois temo-nos dado bem ao longo dos anos. A minha prioridade é para com pessoas aqui da zona, principalmente aqui de Cernache.

RC – Por isso a parceria com o Instituto Vaz Serra (IVS).
FA – Este ano tivemos 19 pessoas do IVS a estagiar nas empresas do grupo, em Cernache, Lisboa e Leiria. Dou muita importância aos miúdos. Ninguém com 15 anos é empresário mas com 30 será e alguém com 30 já teve 15. Portanto estas coisas têm que começar a ser trabalhadas de tenra idade. Se queremos incutir aos miúdos alguns valores de empreendedorismo e profissionalismo é agora. O investimento que fizemos no IVS tem a ver com essa lógica. A minha preocupação não é só o valor de vendas do grupo, mas também a responsabilidade social que tenho que ter com as pessoas da minha terra. Ninguém consegue nada sozinho e quando somos empurrados chegamos mais fácil.


RC – Em que idade deve uma criança começar a lidar com a informática?
FA A educação devia mudar um pouco e deviam aprender inglês desde a primeira classe ou incutir-lhes a vontade de viajar. Ao nível da informática, é relativo pois nem todos vão para programadores. Um miúdo que vive em Cernache devia, até aos 18 anos, conhecer as principais capitais da Europa e isso não é assim tão complexo em termos de euros. Quando viajam têm que se desenrascar. Muito do meu crescimento também teve a ver com isso.

RC – Ainda está em cima da mesa a criação de uma incubadora de empresas aqui no concelho para a Sendys instalar algumas áreas de negócio?
FA Da minha parte há toda a disponibilidade. Quando eu vim para a Sertã, houve uma promessa do presidente de câmara em que eu ia temporariamente para o SerQ e aqui em Cernache iria ser aberto um polo do SerQ. Eu dei o primeiro passo e cumpri com o Labseal. Agora aguardo serenamente o que resolvam fazer.

RC – As empresas que aqui estão trabalham para a região e também para o mundo?
FA Sim. Nós damos emprego a pessoas altamente qualificadas e estas pessoas estão a trabalhar para o mundo inteiro.


RC - Falando na OKI. Foi a Sendys que conseguiu desbloquear um grande problema dessa empresa, ou não?
FA – A OKI tem-nos lançado alguns desafios importantes. Após cinco ou seis tentativas que fizeram com outras empresas, de outros países, nós fomos a empresa que lhes estamos a conseguir dar resposta a uma pretensão e objetivo que têm. Isso é um orgulho para nós.

RC – Onde estão a trabalhar têm apenas uma área de negócio?
FA Depende do produto e do cliente. Se falarmos em Angola ou Moçambique está muito ligado ao software de gestão de contabilidade, faturação, gestão documental. Se falarmos de Sendys Explorer estamos a falar de Rússia, Alemanha ou México. Em cada geografia temos produtos diferentes.

RC – Como se entra no circuito dos grandes a nível mundial?
FA – Entrando! Com muita persistência e insistência. Temos um projeto na área do printing que surgiu do zero. Uma startup dentro da empresa. O Explorer é um sistema de gestão de printing para controlo de impressoras que é único em Portugal. A nossa concorrência é australiana e brasileira, identificámos uma área de negócio, trabalhámo-la, criámos um produto e fomos a Espanha mostrar a um fabricante. Correu tão bem essa reunião que disseram para irmos a Inglaterra fazer essa apresentação. Foi o que fizemos. A partir daí deixámos de ir e começaram eles a vir e as coisas começaram a acontecer naturalmente. Tendo referências é fácil ganhar o próximo. Difícil é ganhar o primeiro. Por exemplo, andámos um ano em Moçambique sem ter nada e de repente parece que havia tudo para vender lá. Quando as pessoas ganham confiança no nosso trabalho é muito mais fácil vender.

RC – Isso aprende-se onde?
FA – No meu tempo aprendia-se numa mercearia, ali ao lado da igreja, que era do meu pai. 80% do que sou como empresário foi com o meu pai que aprendi. A vivência com todas as pessoas ensinou-me o que são clientes, fornecedores e amigos, quem vai comprar e não paga. Temos que estar bem dispostos apesar de estarmos chateados e isso não se aprende numa cadeira de universidade.

RC – Onde está agora a Sendys e para onde caminha?
FA – Se pensarmos nos meses mais próximos possivelmente teremos meses que não serão fáceis. Já noto alguns clientes um pouco na defesa. Quem tem dinheiro não o está a querer gastar. Felizmente que o facto de estarmos em várias geografias, quando desacelera em Portugal, acelera noutros países. O mundo nunca há-de estar todo mal. Em termos de negócio temos que estar atentos e ver onde o planeta está a desacelerar e ir procurar geografias onde será mais rápido e focarmo-nos aí.
Este ano fazemos 35 anos a reinventarmo-nos e temos um novo desafio que é fazê-lo para uma nova fase com pessoas que são muito diferentes do que eram no passado.

RC – O Fernando Amaral está com 50 anos. E agora?
FA – Conforme vamos envelhecendo dizemos muito que a idade está no nosso espírito, e está. A nossa idade está no que fazemos e na forma como o fazemos, como encaramos a vida e olhamos as coisas. Eu tenho uma atitude muito positiva em relação às coisas, porque tenho uma tendência natural para me focar na solução e não estar a discutir problemas.

RC – Não se vê a deixar a empresa e a gozar a vida?
FA - Tenho uma preocupação grande que é trabalhar mais, porque felizmente consegui montar uma equipa fantástica no grupo e organização que acho que se eles descobrirem que não precisam de mim, eu nunca mais volto a arranjar emprego. Portanto tenho que trabalhar mais do que os outros e a minha preocupação é ser melhor do que tenho sido até agora.
Esta vontade que devemos ter em nos superar e evoluir é que nos faz chegar a velhinhos e ter muitas histórias para contar.


RC – Ser uma empresa familiar ajuda?
FA – A família é o fator mais importante para tudo o que consegui até hoje, sozinho ninguém consegue nada. Ter alguém ao nosso lado em quem podemos confiar incondicionalmente é extremamente importante para fazer as coisas evoluírem.


RC – Este projeto começou de um sonho?
FA - Gostava de dizer que sim porque era bonito, mas não. Estas coisas constroem-se à medida que vamos caminhando. Frequentei uma formação e um professor espanhol disse que a maior parte de aquisições de bancos em Espanha desde a 2ª Guerra Mundial, nenhuma foi estratégica. A maior parte das coisas na vida acontece porque surge oportunidade e depois há pessoas que têm uma capacidade e visão e conseguem agarrá-la e transformá-la no que é o seu sonho.
Perguntarem-me se aos 20 anos eu sonhava ter empresas de informática líderes em Portugal na sua área, diria que sim, mas perguntarem se era concretizável, eu diria que não.
Quando adquirimos à Capgemini o software Sendys, a minha preocupação era pagar a casa em 30 anos. Agora tenho a preocupação de pagar de 30 em 30 dias os ordenados. Os sonhos também têm este preço. As coisas têm corrido bem mas há variáveis que não controlamos.

RC – Considera que já sabe tudo ou ainda falta muita coisa?
FA – Ainda falta muita coisa. Muita mesmo. Todos os dias se aprende muita coisa nova.

RC – E isso é uma mensagem que passa aos que o rodeiam!
FA – Costumo dizer aos miúdos que querem ser programadores, que se acham capazes de tudo e que querem trabalhar com tecnologia de ponta… Aquilo dura cinco anos pois aparecerá outro miúdo que trabalha noutra tecnologia ainda mais de ponta. É complicado estar a falar com adolescentes e eles ouvirem-nos, mas o nosso trabalho é passar uma mensagem. Eu passei por isso. O meu pai dizia-me coisas a que eu não dava importância e hoje dou por mim a repetir o que ele dizia. Quando chegar a altura certa a pessoa há-de saber usar essa mensagem.


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