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“Do sofá até à maratona”…

O dia a dia, apegado em stress, escondia outros problemas quando Paulo Ferreira, de Cernache do Bonjardim, percebeu que tinha que quebrar a fronteira entre continuar uma vida sedentária ou adotar um hábito de vida saudável. Começou então a praticar desporto. Nesse começo foi o cansaço que o alertou.

PFerreira1Marcou uma data, um compromisso público, e começou a correr por um chavão que depois lhe abriu a porta a uma vida diferente.
Por brincadeira saltou do sofá para a maratona e tudo mudou, por determinação e vontade.

Hoje sente-se bem melhor e faz o convite a todos quantos o queiram seguir nas corridas. Hoje sabe que foi exemplo para alguns, mas quer ser para muitos mais. Aos mais pequenos diz que há mais para além do futebol e aos mais velhos que nunca é tarde. Nada o para, nada o limita.

Ganhou uma nova qualidade de vida, melhorou índices de saúde. Mudou na mente e encara a vida de forma diferente. Não se resignou e deixa a mensagem de que é a própria pessoa que escolhe o seu caminho.


Rádio Condestável (RC) – Quem era o Paulo Ferreira antes de entrar nesta aventura?
Paulo Ferreira (PF) – Era uma pessoa que estava a entrar por um caminho que na altura não me apercebi e que podia ser complicado para a minha saúde. O dia-a-dia acaba por nos distrair e não damos importância aos sinais do nosso corpo e dos anos. Eu estava a ficar com excesso de peso e tinha hábitos tabágicos muito acentuados e de muitos anos. Estava a passar a fronteira e já havia algo com que ficava desconfortável. Apercebi-me que talvez estivesse na altura de fazer qualquer coisa.

RC – Foi quando decidiu deixar de fumar?
PF – Não. Foi ainda antes disso. Foi num dos encontros que comecei a ter com amigos no âmbito de fazer alguma atividade física. Senti-me mal pela minha prestação física e foi aí que percebi que não estava bem. Corri meia hora e fiquei de rastos mas mantive o tabaco. Depois da atividade física acabava por me refugiar novamente no que era o hábito e foi essa dicotomia de tentar fazer alguma coisa e manter os maus hábitos que me fez pensar. Andei uns dias assim, até que marquei uma data e deixei de fumar. Publiquei inclusive que o ia fazer e assumi assim um compromisso público. Não podia falhar, pois se o fizesse estava a fazê-lo perante mim e perante muita gente. A pressão que coloquei sobre mim acabou por resultar.

RC – Isso fez então que saltasse “Do sofá para a maratona”?
PF – Isso foi outra brincadeira. Comecei em maio do ano passado e numa hora de almoço fiz uma página no facebook, sem saber ainda o que estava a assumir, mas como sou uma pessoa que gosta de desafios, quando me propuseram a maratona eu fui.

RC – E esse caminho tem sido difícil de percorrer?PFerreira2
PF – Como diria um amigo meu, “os 42 km da maratona são os mais fáceis de fazer, o mais difícil é o caminho até lá”. Por isso o primeiro passo foi deixar de fumar, voltar a correr com alguma regularidade, tratar melhor da minha alimentação, perder peso e tratar algumas lesões que foram aparecendo.

RC – Como foi a primeira maratona?
PF – Foi um pouco a medo porque sentia que não estava preparado, mas a teimosia foi mais forte e venci. Venci para mim a primeira maratona, já que não fiz um tempo bom. Venci a barreira e o sofrimento de passar os 30 km e acabei em força e isso levou-me a querer melhorar o registo e a prosseguir os meus treinos, não abandonando assim o projeto.

RC – E como foi a segunda?
PF – A segunda correu ainda melhor e fiquei muito animado.

RC – Agora tem corrido em algumas provas de atletismo?
PF – Sim.

RC – Porquê?
PF - Para me motivar. Acabo assim por abraçar esses projetos mais pequenos e algumas meias maratonas, no fundo para manter a fasquia da boa forma física. Associei-me também à causa “Corremos com a Esclerose Múltipla” e sempre que posso, independentemente do sítio do país, vou correr essas provas.

RC – Considera que, pelo facto de publicitar o que faz, tem influenciado outros?
PF – Sim e sinto responsabilidade por essas pessoas, não só as que começaram mas as que me acompanham e que ficam motivadas. Isso é um feedback que acaba por ser cíclico já que também me motivo com elas e com a sua progressão.

RC – Ainda assim corre maioritariamente sozinho na vila de Cernache. Gostaria de ter mais pessoas a acompanhá-lo?
PF – Sim. Em Cernache não vejo muita gente a correr. Logo que recuperei das mazelas físicas comecei a correr todos os dias, quer esteja frio, chuva, calor ou sol e o muito frio limita logo os companheiros que possam aparecer, mas vêem-se já algumas pessoas na rua, só que gostava de ter mais pessoas para correr. Independentemente da velocidade, a companhia ajuda muito a crescer.

PFerreira3RC – Já teve algum dissabor/problema enquanto corria?
PF – Fui atacado por um cão de grande porte que me deixou mazelas num braço. Isso serviu para alertar os outros dos perigos a que estamos sujeitos e fi-lo numa Assembleia Municipal da Sertã numa tentativa de sensibilizar o poder político para a criação de uma estrutura fechada para as pessoas treinarem.

RC – Mas esse projeto não é limitativo?
PF – É limitativo em termos de paisagem e espaço para quem quer correr muitos quilómetros, mas quando falamos de crianças, uma pista chega e sob o ponto de vista técnico, com certeza que os treinadores também querem melhorar os índices do atleta e a pista é o local certo. Ao mesmo tempo estão em segurança. O investimento não é muito caro e faz falta.

RC – Nunca pensou ligar-se a um clube, até para ter outros apoios?
PF – Neste momento é um projeto pessoal que me levou a adquirir alguma qualidade de vida. O processo é recente e não tenho a ambição de praticar ao mais alto nível. Vou aprendendo com quem está há mais tempo nas corridas.

RC – Mas já teve a possibilidade de integrar um clube?
PF - Sim, quando era mais novo, mas isso implicaria uma mudança para outra cidade, coisa que, se conseguirmos fazer com os nossos jovens dando-lhes aqui algumas condições, até sob o ponto de vista da prospeção de valores, mais facilmente conseguimos saber se eles estão em condições de dar esse passo para o futuro.

RC – E temos exemplos disso na Sertã!
PF – Sim. A partir do momento em que tivemos uma piscina com condições para treinar, nasceu o projeto da natação. Agora temos pessoas qualificadas que o abraçaram e muitos jovens a praticar e a trabalhar. Paralelamente existe o projeto do atletismo que está a dar excelentes frutos e porque não dar-lhes também condições com a pista que referi.

RC – Depois deste ano a correr é uma pessoa diferente?
PF – Totalmente. Mentalmente sinto-me muito melhor. Ganhei ao nível da saúde, até porque este processo acaba por nos levar para novos hábitos e sítios, contacto com pessoas diferentes e mesmo nas causas sociais com que me envolvo, tive oportunidade de conhecer pessoas espetaculares, com problemas graves e que não se resignam.

RC – Pode dar-nos alguns exemplos?
PF – Falo de pessoas em processo de recuperação oncológica, amputadas, com doenças autoimunes e que correm e fazem maratonas. Ora, nós que temos cá tudo, porquê não praticar uma atividade física que nos liberta prazer no cérebro. Há uma recompensa psicológica nisso.

RC – Se por acaso não tivesse dado este passo, como seria o Paulo Ferreira?
PF – Certamente que estaria numa situação muito complicada, mesmo em ter cardíacos e pulmonares. Foi um clique que se deu na altura certa.

RC – E na alimentação houve mudanças?PFerreira4
PF – Sim. Principalmente nos meses que antecederam a primeira maratona. Tentei adequar a alimentação porque tinha que perder peso para me conseguir aguentar a correr tantos quilómetros. Depois disso tive que fazer nova adaptação já que o processo de perda de peso não podia continuar. Aumentei o número de quilómetros corridos e tive que fornecer energia ao corpo.

RC – Fez alguma dieta específica?
PF – Não. Eliminei alguns alimentos mas continuo a ter a alimentação que tinha antes. A diferença é que antes repetia se gostasse do prato, agora diminuo a quantidade mas não deixei de comer o que me dá prazer. Evito os refrigerantes, mas de vez em quando também prevarico pois penso que não vale a pena sermos fundamentalistas de nós próprios.

RC – Em todo este processo de quase um ano tem tido acompanhamento técnico?
PF – Sob o ponto de vista médico fiz alguns exames antes de começar mas não tenho qualquer apoio diferenciado, até porque, tirando as longas distâncias, acho que não faço nada que me prejudique fisicamente e não tive esse cuidado. A nível da alimentação também não procurei ajuda e é um processo que vou adequando o que posso ou não fazer.

RC – A ideia é não retroceder.
PF – Sim. Foi assim com o tabaco e este é um compromisso comigo e para com os outros.

RC – Além de estar ligado ao projeto de “Correr com a Esclerose Múltipla”, está também ligado a outros projetos.
PF – Gosto de estar ligado a causas solidárias. Comecei numa iniciativa denominada “Volta a Portugal Solidária”, onde corri 30 km, quando na altura corria pouco mais do que 10 km. Isso também me motivou e percebi que conseguia ir mais além.

RC – Que conselhos deixa a quem quiser mudar para um estilo de vida mais saudável?
PF – O essencial é que é possível mudar e se as pessoas não ficarem convencidas eu conto de novo a minha história. O primeiro passo é andar pois ninguém consegue começar a correr quando mal consegue arrastar os pés, depois se quiser ir mais além começa a correr um ou dois quilómetros, uma ou duas vezes por semana e vai aumentando o ritmo. A partir daí instala-se um hábito e as coisas vão mudar. Relativamente a outros vícios, se conseguir sozinho, ótimo, se não pede ajuda específica.

Nota: Esta entrevista foi a primeira de um conjunto que será emitido, procurando evidenciar modos de vida saudáveis, com casos concretos de alteração de hábitos de viver, conduzindo a uma vida com mais saúde. Haverá exemplos de quem começou a correr, daqueles que começaram a fazer do pedestrianismo um hábito diário ou, simplesmente, de quem enveredou por uma alimentação mais saudável.


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