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Psicologia e Afectos. Vida e Saúde. Cidadania e Comunidade. Economia e Sociedade. Escola e Trabalho. Emprego e Carreira. Às quartas, às 8h30 e às 15h30, nos 91.3, 92.7 e 107.0 FM da Rádio Condestável. Queremos pô-lo a pensar. Só isso. Nada mais.
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Por: Ricardo Nunes - Psicólogo.



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Entre o Normal e o Patológico (II): A Depressão Enquanto Emoção Inibitória
Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na nossa última reflexão tentámos perceber como funciona a ansiedade. Procurámos deixar bem claro que a resposta ansiosa pode ser considerada adaptativa e funcional, uma vez que mobiliza o indivíduo para a acção. Foi a primeira de um conjunto de reflexões em que tentaremos perceber melhor algumas das perturbações psicológicas mais comuns e com as quais somos bombardeados diariamente nos vários órgãos de comunicação social. Ansiedade, depressão, anorexia, bulimia: são expressões que nos habituámos a ouvir no senso comum e que representam complicações do foro psíquico mais ou menos complexas. Propomo-nos aqui a analisar algumas destas doenças de uma forma o mais pedagógica possível, tentando perceber as suas principais causas e consequências e deixando algumas recomendações para todos os que com elas convivem com maior ou menor proximidade.
Hoje focaremos a nossa análise numa das doenças ditas “da moda”. Quem é que já não recorreu a expressões como “hoje estou deprimido” ou “esta vida é deprimente”? A depressão é o distúrbio psicológico com a maior taxa de prevalência em Portugal. Vários estudos recentes apontam para uma taxa na ordem dos 10%, ou seja, estes números indicam que 1 em cada 10 portugueses sofre de depressão. Serão estes números realistas? O que é que causa depressão? Que tipo de sintomas estão associados ao estado depressivo?
Para melhor compreendermos esta doença, importa começar por perceber a diferença entre ansiedade e depressão. Na última semana, vimos que a ansiedade possui uma componente mobilizadora, ou seja, o ansioso, perante uma situação de ameaça, procura uma resolução do problema. Ao invés, o deprimido, perante um problema, desiste imediatamente, denotando um sentimento de culpa ou falha. Daqui ressalta que a depressão é uma emoção inibitória. Inibição, no sentido em que o deprimido, face a uma situação de perda, desiste de lutar por aquilo que perdeu.
É precisamente aqui que reside também a diferença entre a depressão e uma outra emoção facilmente associada a ela, a tristeza. A tristeza constitui uma resposta emocional normal e transitória a acontecimentos de vida negativos. Um indivíduo triste sabe o que perdeu, chora o que perdeu, mas mobiliza os seus esforços para recuperar o que perdeu. Em contrapartida, um indivíduo deprimido é alguém que desistiu de acreditar no futuro e na possibilidade de atingir os seus objectivos, ou acredita que as suas tentativas só o vão levar ao fracasso e à rejeição. Ao contrário da tristeza, que é uma emoção passageira e funcional, a depressão é uma doença, com critérios de diagnóstico objectivos. Muitas depressões tomam inclusive o cenário de quadros clínicos complexos e heterogéneos, que agrupam um conjunto de sintomas em diversas áreas de funcionamento do indivíduo.
A depressão caracteriza-se, pois, por uma visão negativa do próprio indivíduo, do mundo e do futuro, associada a uma perda de prazer ou interesse em todas ou quase todas as actividades. Os principais sintomas associados à depressão incluem a tristeza, a irritabilidade, a angústia, o choro fácil, a melancolia, a perda de peso associada a uma diminuição do apetite, a insónia ou hipersónia, a agitação ou inibição psicomotora, a fadiga ou perda de energia, o sentimento de desvalorização ou culpa excessiva e a diminuição da capacidade de atenção-concentração.
Não podemos, contudo, confundir a ocorrência de um episódio depressivo com o diagnóstico de uma doença grave como a depressão. O surgimento de alguns destes sintomas é considerado normal perante um episódio de perda ou culpa. Apenas uma complexa constelação de sintomas configura aquilo que podemos denominar como a passagem do normal para o patológico. No entanto, como referimos na nossa última reflexão, este limiar é bastante ténue e define-se, grosso modo, como o momento em que os sintomas passam a interferir disfuncionalmente no bem-estar do indivíduo, modificando o seu quotidiano. Esta transição só ocorre em quadros clínicos complexos, pelo que considero excessivo afirmar que 1 em cada 10 portugueses sofre de depressão. Diria mais que este número resulta de diagnósticos displicentes ou, pura e simplesmente, de uma sobreavaliação de sintomas.
Embora todos tenhamos dias menos maus, não somos todos doentes. E somos tão menos doentes quanto melhor e mais rica for a nossa rede relacional de afectos. É nos amigos, na família, na escola, no trabalho, enfim, naqueles com quem nos relacionamos diariamente, que encontramos o suporte que nos impede de cair na esfera do patológico. Não nos deixemos enredar por um cenário negro e procuremos valorizar aquilo que de bom existe em nós, no mundo e no futuro. O equilíbrio é sempre possível.
Até para a semana. Directo à Questão.

 
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Entre o Normal e o Patológico (I): A Ansiedade Enquanto Reacção Adaptativa
Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.

Nas nossas próximas reflexões tentaremos perceber melhor algumas das perturbações psicológicas mais comuns e com as quais somos bombardeados diariamente nos vários órgãos de comunicação social. Ansiedade, depressão, anorexia, bulimia: são expressões que nos habituámos a ouvir no senso comum e que representam complicações do foro psíquico mais ou menos complexas. Propomo-nos aqui a analisar algumas destas doenças de uma forma o mais pedagógica possível, tentando perceber as suas principais causas e consequências e deixando algumas recomendações para todos os que com elas convivem com maior ou menor proximidade.

Hoje tentaremos perceber melhor como funciona a ansiedade. Muitas vezes falamos em nervosismo, ânsias, medos, fobias. Afinal, o que significa a resposta ansiosa e porque é que surgem os distúrbios ansiosos?

Antes de mais, gostaria de tentar transmitir uma ideia que considero chave para uma melhor compreensão desta questão. A ideia de que a distinção entre aquilo que consideramos normal e aquilo que entendemos como patológico ou clínico é uma distinção difusa. O limiar entre o normal e o patológico é muito ténue. Adoptando uma perspectiva simplificadora, podemos afirmar que o mesmo comportamento deixa de ser normal e passa a ser patológico quando interfere no quotidiano do indivíduo, ou seja, quando afecta o seu bem-estar diário a um nível significativo.

Afinal de contas, todos nós sofremos de ansiedade. Todos nós temos os nossos medos e fobias. Mais: a resposta ansiosa é uma resposta normal, funcional e até adaptativa. Senão vejamos: a ansiedade ocorre sempre que o nosso cérebro interpreta uma situação como ameaçadora. Na natureza, face a um predador, a presa tem basicamente duas hipóteses: age (lutando ou fugindo) ou pára (o chamado “freeze”). Se não existisse este mecanismo natural de sobrevivência e adaptação ao meio, resultado de um sistema evolucionário que nos conduz aos primórdios do ser humano, o mais certo era o predador vencer sempre. E nós sabemos bem que tal não acontece, muito pelo contrário. É esta componente mobilizadora da ansiedade que importa sublinhar, ou seja, a ideia de que a resposta ansiosa mobiliza para a acção, contribuindo para a sobrevivência da espécie.

Ao contrário dos nossos antepassados, hoje as nossas principais ameaças não são leões nem tigres sedentos de uma boa refeição. Mas não deixamos se ser expostos diariamente a situações que facilmente interpretamos como ameaçadoras e, portanto, desencadeadoras de ansiedade. Pode ser um exame na escola, um novo colega de trabalho, uma conta para pagar, uma tragédia vivida por um familiar, enfim, todas aquelas situações que, habitualmente, dizemos que contribuem para o nosso “stress”, essa expressão que se vulgarizou e que, no fundo, pode ser um pouco de tudo.

Perante a exposição a uma situação dita “stressante”, temos pois que o nosso organismo desencadeia, naturalmente, um conjunto de sintomas associados à resposta ansiosa. Assim, a sintomatologia associada à ansiedade pode manifestar-se sob a forma motora (por exemplo, contracção muscular; postura tensa), sob a forma vegetativa (por exemplo, taquicardia; rubor facial), sob a forma emocional (são todas aquelas emoções associadas, como o medo ou a raiva) ou ainda sob a forma cognitiva (através de pensamentos antecipatórios, como “Não vou conseguir fazer nada”, “Não sou capaz de resolver isto” ou “Sou um falhado”).

Este tipo de pensamentos, são, basicamente, a causa dos distúrbios ansiosos, uma vez que resultam de interpretações erradas da realidade. É que o nosso cérebro funciona como um computador, numa lógica de processamento de informação. Simplificando, podemos afirmar que as doenças psicológicas resultam de enviesamentos ou erros no processamento dessa informação que captamos no meio. Se eu considerar que sou incompetente ou incapaz de lidar com a situação que provoca ansiedade, significa que estou a efectuar uma avaliação errada da situação, o que, em vez de contribuir para uma resolução rápida e eficiente do problema, tende a aumentar ainda mais a minha ansiedade. E a melhor forma de evitar que estes pensamentos - que resultam de erros de processamento - interfiram no desempenho do indivíduo, é tentar racionalizá-los, ou seja, tentar perceber que não contribuem para a diminuição da ansiedade (muito pelo contrário), e substitui-los por pensamentos alternativos mais funcionais, tais como “Sou capaz”, “Vou conseguir”.

Até para a semana. Directo à Questão.

 

 
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Jogos Olímpicos: O Espelho de um Mundo
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Os Jogos Olímpicos constituíram desde sempre, ao longo da história, um espelho do clima político e social à escala mundial. Apesar de serem ancorados, desde os tempos da Grécia Antiga, num espírito pacificador – através da famosa “trégua olímpica” – muitas foram as vezes que este propósito subjacente à dinâmica dos Jogos não se concretizou. Por exemplo, nas duas Grandes Guerras Mundiais os Jogos Olímpicos não se realizaram. Em contrapartida, noutras ocasiões, conseguiram ser mesmo desencadeadores de guerras. Em 1972, membros da equipa israelita foram feitos reféns por uma equipa de comandos palestinianos extremistas, provocando uma série de mortos, naquele que haveria de ficar para a história como o Massacre de Munique. Já em 1936, Hitler serviu-se dos Jogos para tentar mostrar a superioridade da raça ariana e recusou-se a entregar a medalha de ouro ao atleta Jesse Owens.
Também a mensagem Humanista, baluarte do espírito olímpico, muitas vezes deixou de ser cumprida. Constituem exemplos os famosos boicotes aos Jogos de 1980 e 1984, durante a Guerra Fria, pelo bloco de países soviéticos e pelos Estados Unidos, respectivamente, e ainda mais recentemente, o violento atentado à bomba ocorrido em Atlanta nos Jogos de 1996.
Temos pois que, dada a importância e a visibilidade dos Jogos Olímpicos à escala mundial, vem vindo a assistir-se a uma subversão dos princípios que norteiam este acontecimento, tendo os Jogos sido frequentemente usados enquanto palco privilegiado para a expressão mais ou menos directa de confrontos políticos e reivindicações sociais. Não é, portanto, surpreendente a recente polémica em torno de um eventual boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim, no próximo Verão.
Nesta questão, há um facto inquestionável. À luz dos princípios de Direito Internacional, a ocupação do Tibete pelo Estado Chinês é uma ocupação ilegítima e contrária a todos esses princípios que esse tal Estado Chinês diz respeitar. E o outro estado, o estado a que a situação chegou actualmente, é o resultado de anos e anos de uma enorme repressão religiosa, económica e política por parte da China.
Muito para além do caso tibetano, esta posição repressora da China tem claramente contribuído para as dramáticas situações vividas nos territórios do Darfur e da Birmânia. E mais, a China é o maior protector diplomático da Kartum e Rangoon, e o maior consumidor do petróleo produzido no Sudão.
Os Jogos Olímpicos têm ainda posto a nu todos os problemas ligados à protecção dos Direitos Humanos na China, nomeadamente quando nos chegam notícias de uma verdadeira limpeza nas ruas de Pequim, de mendigos, prostitutas e outras formas visíveis de pobreza.
Contudo, parece-me que um boicote às Olimpíadas não constitui, de forma alguma, a melhor resposta no contexto actual. São particularmente evidentes os prejuízos para os atletas, que se prepararam anos a fio para o maior evento desportivo à escala mundial e vêem assim goradas as expectativas de sucesso alimentadas durante os últimos tempos. Em meu entender, apenas uma combinação entre medidas de repressão sobre a China e diálogo diplomático com Pequim poderá produzir resultados valorosos.
O poder actual da China na economia à escala mundial não pode ser ignorado. A realização dos Jogos Olímpicos do próximo Verão, mais do que uma ameaça, deverá constituir uma oportunidade para o povo chinês provar a sua capacidade de organização e a sua influência no Mundo. Não pode é de maneira alguma servir para mascarar as evidentes desigualdades sociais do país e afirmar o poder do Estado Chinês por via da força e da repressão sobre os mais fracos.
Os tibetanos encontraram, naturalmente, nos Jogos Olímpicos, uma janela de oportunidade para fazerem ouvir a sua mensagem. Neste contexto, o Dalai Lama encara hoje o seu maior desafio desde o exílio, há 49 anos. Será que a sua mensagem de paz trará definitivamente a liberdade ao seu povo? Uma coisa é certa. A mensagem passou e, independentemente do desfecho final desta História, o Tibete pode pelo menos congratular-se com uma maior abertura e sensibilização da comunidade internacional para um grave problema de violação dos Direitos Humanos.
Até para a semana. Directo à Questão.

 
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Sobre as Decisões de Carreira (II)
Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na última semana tentámos perceber o que é que valorizam os nossos alunos no momento da escolha de carreira. O que é que norteia a decisão dos alunos no momento da escolha por este ou aquele curso, por esta ou aquela universidade ou instituto. E deixámos a nossa reflexão precisamente na distinção entre dois conceitos muito associados à escolha de carreira. Os conceitos de interesse e de vocação. Analisemos então estes dois termos.
Os interesses profissionais podem ser entendidos enquanto tendências disposicionais para a acção. São “aquilo que eu gosto de fazer” ou “aquilo que eu quero fazer no futuro”. Contudo, confinar a decisão de carreira aos interesses por uma determinada área de actividade baseia-se na assumpção errónea de que o interesse intrínseco numa actividade é a fonte primária de satisfação em qualquer ocupação. É de fácil constatação que essa fonte pode estar mais relacionada com os valores do que com os interesses profissionais, isto é, uma boa escolha pode ter mais a ver com o que cada aluno valoriza no desempenho de determinada profissão do que com o que efectivamente gosta de fazer. Valores como o nível de empregabilidade associado a determinada área de formação, o estatuto adquirido pelo desempenho de uma dada ocupação ou a remuneração auferida em certos cargos profissionais tomam, não raras vezes, precedência sobre outros critérios no manancial da escolha de uma carreira.
O segundo conceito que gostaríamos de trazer a discussão é o conceito de “vocação”, um vocábulo particularmente em desuso, sendo habitualmente substituído pelo termo “carreira”. A noção de “vocação” surge antes da Revolução Industrial e está associada à ausência de especialização de funções, onde a escolha é determinada por um processo de transmissão geracional. A vocação pode ser, portanto, entendida como uma espécie de chamamento. Já o termo “carreira” está relacionado com a concepção do trabalho segundo sequências temporais de organização administrativa e remete para a ideia de uma certa estabilidade (ou seja, a carreira vai-se construindo ao longo da vida). Actualmente, com todos os constrangimentos económicos e sociais, nem podemos falar em escolha por vocação, nem na criação de uma carreira.
Assim, mais importante do que tomar decisões certas, é tornar certas as decisões. De forma a que sejam cada vez menos irreflectidas e arbitrárias. E tal só é possível por via da exploração de informação de carreira. Para evitar que os alunos continuem a decidir no último dia, quando têm os impressos de candidatura nas mãos, qual o destino que colocam como primeira opção, revela-se fundamental a informação actualizada e diversificada sobre cursos e instituições. Apenas a tomada de contacto com material informativo que permita a aquisição de uma grelha pessoal de conhecimentos sobre a diversidade de cursos existentes, evita as decisões por impulso, irracionais e irreflectidas, infelizmente tão comuns.
Quando a empregabilidade do curso é, compreensivelmente, no contexto actual de turbulência do mercado de trabalho e da própria sociedade, um dos aspectos mais valorizados pelos alunos no processo de escolha, a informação fornecida pelas instituições deve incluir dados sobre a inclusão no mercado de trabalho dos recém-licenciados dos diferentes cursos, quer em termos de tempo de espera para o primeiro emprego, quer em termos de instituições empregadoras, condições de trabalho e até de remunerações auferidas. Só recentemente é que o Ministério da Educação começou a manifestar preocupação na divulgação deste tipo de dados, mormente através da indicação de quais os cursos com maior nível de desemprego. Contudo, só poderemos avaliar o impacto deste tipo de iniciativas no processo individual de tomada de decisão num período de médio-longo prazo.
Para todos os alunos do 12.º ano que se encontram, neste momento, indecisos quanto à escolha a efectuar e, por isso, nervosos por antecipação de uma eventual decisão menos boa, deixo duas notas. A primeira para referir que essa ansiedade que possam sentir à medida que se vai aproximando o momento da decisão é natural e adaptativa. Significa que têm maturidade suficiente para perceberem que se trata de uma decisão que condiciona todas as seguintes e que não deve ser, por isso, tomada de ânimo leve. A segunda nota para aconselhar cada um dos decisores a não se deixar abater por essa ansiedade, tentando resolve-la através do acesso à maior quantidade possível de informação de carreira disponível sobre os diferentes cursos e instituições de ensino. De tal forma que a decisão possa ser tudo menos irreflectida ou espontânea e possa antes ser devidamente fundada em argumentos sólidos, mais ou menos subjectivos. Porque a informação é a base para qualquer decisão.
Até para a semana. Directo à Questão.
 
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Sobre as Decisões de Carreira (I)
Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Nas nossas duas próximas reflexões tentaremos perceber o que é que valorizam os alunos no momento da escolha de carreira. Afinal de contas, falamos do momento de decisão por um curso, por uma ocupação, por um destino de vida.
Com o aproximar do final do ano lectivo, milhares de alunos um pouco por todo o país vêem avizinhar, com maior ou menor ansiedade, o momento das grandes decisões de carreira. Em 2007, foram abertas mais de 46 mil vagas no ensino superior público. Cerca de 85% dos 40 mil candidatos foram colocados na primeira fase do concurso de acesso. Mas, afinal, o que é que norteia a decisão dos alunos no momento da escolha por este ou aquele curso, por esta ou aquela universidade ou instituto? Porque é que ouvimos sistematicamente expressões como “escolhi este curso porque me apeteceu” ou “vou para aquela universidade porque os meus amigos vão todos para lá” ou ainda “fui para aquele curso porque não consegui entrar naquele de que realmente gostava”?
Entrar para a universidade continua a ser sinónimo de aquisição de um certo estatuto social, apesar de ser cada vez menos uma garantia de sucesso profissional. Pese embora esta desvalorização dos títulos académicos no mercado de trabalho, a obtenção de um diploma continua a constituir um objectivo primordial para um crescente número de alunos. Assim, o diploma tem cada vez mais um valor cultural e menos um valor profissional. Chega a ser impressionante como muitos alunos pretendem ingressar no Ensino Superior apenas pelo estatuto auferido, na maior parte das vezes resultado, inclusive, de enormes pressões sociais (sobretudo, familiares) para o prosseguimento de estudos. Esta situação toma contornos particularmente relevantes se pensarmos como existe, em Portugal, uma enorme carência de profissionais qualificados de nível intermédio e que, para estes cursos, concorrem sobretudo alunos que não encontram vias de formação alternativas.
Mais grave ainda é a ausência completa, em muitos dos casos, de quaisquer motivos válidos para a escolha deste ou daquele curso, sobretudo quando se tratam de cursos completamente dissonantes com interesses, valores e expectativas dos alunos. O sistema montado para o processo de ingresso no Ensino Superior começa por partir, quanto a nós erradamente, do pressuposto de que os alunos possuem um auto-conhecimento e um nível de desenvolvimento de carreira que lhes permita uma escolha consciente, ou seja, parte do pressuposto errado de que os alunos possuem uma maturidade de carreira capaz de uma decisão racional e ponderada.
Contudo, o que podemos facilmente constatar é que a maior parte das decisões de carreira continuam a ser pautadas pelo acaso, pela arbitrariedade e pelo imediatismo. Muitas das vezes, os alunos escolhem uma profissão, não porque se imaginem e projectem no futuro a desempenhá-la, mas porque o vizinho do lado também assim fez, ou porque a formação na área não tem aquela disciplina considerada difícil. Por muito que se tente desconstruir todo um conjunto de ideias baseadas em informação parcelar e enviesada, muitas das decisões dos nossos alunos continuarão a fundar-se na comparação social com os colegas e na influência dos seus modelos de referência.
Mais de dois terços dos alunos matriculados no 12.º ano frequentam a Área de Ciências e Tecnologias. Destes, existe uma quantidade exorbitante de alunos que pretende seguir um curso superior na área das ciências da saúde. Cursos como os de Medicina, Ciências Farmacêuticas, Psicologia, Bioquímica ou Tecnologias da Saúde (por exemplo, Fisioterapia, Radiologia, Análises Clínicas, entre outros) figuram, ano após ano, nos primeiros lugares do top de preferências dos alunos, possuindo, por isso, elevadas médias de acesso. Parece-me que a existência de um tão elevado número de alunos “interessados” (e sublinhe-se o termo “interesse”) em enveredar por este tipo de cursos constitui uma probabilidade irrealista. É impossível que os interesses de todos os alunos que procuram estes cursos superiores convirjam no mesmo sentido; é impossível que haja, por “vocação” (mais um termo que sublinho, “vocação”), tantos médicos ou psicólogos, por exemplo.
Na próxima semana, proponho que analisemos os dois termos que acabei de sublinhar. Interesse e vocação. O que é que os distingue? Devemos ou não valorizar os interesses de quem decide? Devemos ou não continuar a falar em vocação?
Até lá. Directo à Questão.

 
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