Psicologia e Afectos. Vida e Saúde. Cidadania e Comunidade. Economia e Sociedade. Escola e Trabalho. Emprego e Carreira. Às quartas, às 8h30 e às 15h30, nos 91.3, 92.7 e 107.0 FM da Rádio Condestável. Queremos pô-lo a pensar. Só isso. Nada mais.
Por: Ricardo Nunes - Psicólogo.
|
|
Como Joana Vasconcelos pulverizou os números das exposições temporárias em Portugal
Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
“Sem Rede”, a mostra antológica da artista plástica Joana Vasconcelos, que esteve patente no Museu Berardo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, até ao passado dia 18 de Maio, conseguiu pulverizar todos os números das exposições temporárias em Portugal. Um verdadeiro sucesso de público, que beneficiou sem dúvida da política de gratuitidade da entrada na exposição e do mediatismo da autora das obras.
“Sem Rede”, de Joana Vasconcelos, conseguiu quase 168 mil visitantes nos dois meses e meio de exposição, batendo o anterior recorde de afluência a uma exposição temporária em Portugal, que pertencia ao blockbuster “A Evolução de Darwin”. A mostra de grande público que explora as raízes do evolucionismo conseguiu 161 mil visitantes quando, no ano passado, esteve patente na Fundação Calouste Gulbenkian. Igualmente mais entradas que a retrospectiva de Amadeo de Souza-Cardoso que, também na Gulbenkian, superou as 100 mil visitas em 2006-2007.
No entanto, a terceira posição nas exposições temporárias mais vistas de sempre em Portugal pertence a Paula Rego que, em 2004-2005, na Fundação Serralves, conseguiu mais de 157 mil entradas. Esta continua a ser, de resto, a exposição mais visitada de sempre no conhecido museu da cidade do Porto, ligeiramente acima da dedicada ao norte-americano Robert Rauschenberg que, em 2007-2008, contabilizou em Serralves mais de 137 mil visitantes.
Como já referimos, parece-nos que o sucesso da exposição antológica de Joana Vasconcelos está essencialmente alicerçado em dois factores. Em primeiro lugar, beneficia claramente da medida de entrada gratuita seguida pelo Museu Berardo. Esta política de captação de novos públicos que, de outra forma, provavelmente, não teriam acesso a este tipo de arte, apesar de poder desequilibrar as comparações com exposições patentes ao público noutros espaços, parece-nos uma excelente medida na atracção e potenciação de visitantes aos nossos museus.
É, contudo, evidente, que não podemos reduzir o sucesso da exposição “Sem Rede” ao facto da entrada ser gratuita. Basta verificar que a mostra de Joana Vasconcelos excedeu em mais de 60 mil entradas as duas exposições até ai mais visitadas no Museu Berardo: a colectiva “Amália, Coração Independente”, dedicada à nossa diva do fado, que, no ano passado, fechou com um balanço superior a 105 mil entradas; e a mostra dedicada à pintora mexicana Frida Khalo que atingiu números semelhantes em 2006, ainda quando o Módulo 3 do Centro Cultural de Belém não era Museu Berardo.
Existe então um segundo grande factor para o sucesso inequívoco de exposição “Sem Rede”, sem dúvida o mais importante de todos. Falamos, obviamente, da enorme qualidade e mediatismo da artista Joana Vasconcelos. São obras que não deixam ninguém indiferente, pela sua originalidade, mas sobretudo pela sua genialidade. Obras mais conhecidas, como “A Noiva” ou “Coração Independente”, ou outras menos mediáticas, mas tão ou mais magestáticas, como “Contaminação” ou “Cama Valium”, todas elas são marcadas pela forma brilhante como a autora transforma objectos do quotidiano em veículos de arte, sempre de uma forma harmoniosa e consistente.
Brilhante, portanto. Uma autora nacional a descobrir e redescobrir. Mais uma pérola da arte portuguesa. Uma obra sem fronteiras, claro está.
Até para a semana. Directo à Questão. |
|
|
A crise de Portugal vista do estrangeiro versus como os portugueses lidam com a forma como falam de nós
Quarta-feira, 02 de Junho de 2010
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Diz Miguel Esteves Cardoso no Público de 20 de Maio de 2010 que “o costume é ligar de mais ao que os estrangeiros dizem de Portugal, reagindo com fúria ou condescendência. Mas sempre reagindo. E sempre de mais.
Na versão mais tuga, discute-se com o autor como se ele estivesse sentado à mesma mesa que nós: «Não, Mr. Wilson, as nossas cachopas não andam descalças porque não têm dinheiro para comprar sapatos. Será porventura assim com os súbditos de Her Royal Highness, mas aqui em Portugal, I’m sorry to say, só anda descalço quem quer».
É uma atitude pertinente perante uma altura de frânticas exclamações de não sermos a Grécia. O Financial Times e o Economist não são o Reino Unido – são jornais. O que dizem sobre Portugal é escrito por uma ou duas pessoas e lido por poucas mais. Os ditos mercados estariam lixados se dependessem do que lêem nos jornais. Não é só saber que são falíveis. Sabem mais: que, caso seguissem as recomendações que fazem, estariam falidos há muito tempo”.
Serve este excerto de uma das últimas crónicas de Miguel Esteves Cardoso para introduzir o tema que trazemos a reflexão esta semana. E que me perdoem os nossos ouvintes pela insistência nos temas económicos, mas hoje gostaria de falar na crise sempre a crise – sob um ponto de vista diferente: o ponto de vista de como ela é percebida no estrangeiro e de como os portugueses lidam com a forma como falam de nós.
É um clássico afirmar que ligamos em demasia à forma como além fronteiras falam de nós. Mas encontramo-nos numa fase em que se fala particularmente de Portugal no estrangeiro, como de resto há muito não se falava. E pelas piores razões. Basta folhear o Financial Times e o Economist para encontrar logo uma referência aos famosos PIIGS, sigla que identifica as iniciais dos países europeus com economias débeis, que crescem menos que as outras em momentos de prosperidade e são os primeiros a receber o impacto negativo em momentos de crise. São eles Portugal, Itália Irlanda e Grécia. E, apesar de ser indiscutível que a situação lusa não pode ser comparada à grega, também é verdade que nos encontramos numa situação muito delicada, um efeito bola de neve que exige medidas de austeridade sem precedentes. De uma forma muito simplista, qualquer português percebe o seguinte efeito dominó: um Estado gordo e ineficiente é o principal motor de uma economia que importa a maior parte do que consome; contudo, a elevada dívida do Estado impede que este lance novos investimentos públicos ou tão-somente assuma os seus compromissos prévios e pague a horas aos seus fornecedores; por sua vez, estes privados não recebem do Estado e não conseguem financiar-se porque as instituições bancárias não emprestam dado que os juros de financiamento no exterior encontram-se em níveis históricos elevadíssimos; a solução, à falta de melhores, é aumentar impostos, o que origina um aumento da inflação, um menor poder de compra e uma clara tendência recessiva de uma economia já de si débil.
Fácil? Não é, naturalmente. Mas também é evidente que se exagera muito no que se escreve lá fora. E, sobretudo, é verdade que nós, os tugas, continuamos pouco cientes da verdadeira dimensão da crise e a acreditar pouco nos vaticínios que nos colocam numa posição de ruptura. Talvez tão simplesmente porque já estamos habituados. Talvez porque fomos sempre capazes de superar de forma mais ou menos hábil as contrariedades com que nos fomos deparando ao longo da história. Talvez porque simplesmente nunca saímos verdadeiramente da crise.
Até para a semana. Directo à Questão. |
|
|
Sobre o Impacto da Mexida no Rating de Portugal por Parte da Standard & Poor’s (II)
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na continuação da nossa última reflexão, tentamos hoje perceber o impacto do corte em dois níveis do rating de longo prazo da dívida portuguesa de A+ para A- por parte da agência de notação financeira Standard & Poor’s.
A Standard & Poor's é uma divisão do grupo McGraw-Hill que publica análises e pesquisas sobre bolsas de valores e títulos. É uma das três maiores companhias nesse segmento, ao lado da Moody's e da Fitch Ratings.
A história da Standard & Poor's tem início em 1860, quando Henry Varnum Poor publica o History of Railroads and Canals in the United States. Esse livro foi uma tentativa de compilar o máximo de informações sobre as companhias ferroviárias americanas. Henry Varnum fundou então a H.V. and H.W. Poor Co em parceria com seu filho, Henry William, que passou a publicar edições anuais actualizadas desse livro, divulgando os dados de cada ano.
Em 1906, Luther Lee Blake fundou o Standard Statistics Bureau, tendo em vista o levantamento de informações financeiras sobre companhias não ferroviárias. Ao invés de uma publicação por ano, a Standard Statistics efectuava actualizações mais frequentes.
A Standard & Poor’s, tal como é conhecida hoje, surgiu em 1941 com a fusão da Poor's Publishing (a companhia sucessora da H.V and H.W Poor Co) com a Standard Statistics, tendo então passado por uma reestruturação que a conduziu ao actual modelo de negócios. Em 1966, a Standars & Poor’s foi adquirida pela The McGraw-Hill Companies, se tornando a divisão financeira dessa conhecida editora mundial.
A Standard & Poor's é a mais conhecida e reconhecida agência de rating de crédito. Enquanto tal, fornece ratings de crédito para o défice de companhias públicas e privadas. É uma das muitas agências de rating que foram designadas pela Nationally Recognized Statistical Rating Organization pela U.S. Securities and Exchange Commission.
As classificações da S&P vão de uma escala AAA a D. Os Ratings intermédios são oferecido em cada patamar entre AA e CCC (como por exemplo, BBB+, BBB e BBB-). Para alguns empréstimos, a Standard & Poor’s pode também oferecer informação (credit watch) com a seguinte denominação: positive, downgrade ou negative e uncertain ou neutral.
Apesar de alguma descredibilização actual das agências de rating, sobretudo depois de nenhuma delas ter sabido prever a crise económica mundial despoletada em 2008 pela falência do Lehman Brothers, quer a Standard & Poor's, quer a Moody's, quer a Fitch continuam a constituir as fontes de referência na obtenção dos ratings de crédito das dívidas públicas e privadas. Como tal, um corte nos níveis do rating de longo prazo da dívida de um país como Portugal coloca uma inevitável pressão sobre a dívida, fazendo subir os juros e penalizando os mercados bolsistas.
Até para a semana. Directo à Questão. |
|
|
Sobre o Impacto da Mexida no Rating de Portugal por Parte da Standard & Poor’s (I)
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Depois de nas nossas últimas reflexões termos analisado alguns dos factores que estão na base do atraso competitivo português, continuamos hoje a falar de economia. Precisamente porque o assunto não podia continuar a estar mais na ordem do dia. Sobretudo depois de toda a convulsão económica provocada pela descida do rating da dívida pública portuguesa por parte da agência de notação financeira Standard & Poor's.
Analisamos nas nossas duas próximas reflexões o impacto desta decisão da Standard & Poor’s e tentamos perceber como funciona este mecanismo de regulação dos mercados.
O corte em dois níveis do rating de longo prazo da dívida portuguesa de A+ para A- por parte da Standard & Poor’s surge precisamente numa altura em que a pressão sobre a dívida portuguesa faz subir os juros e penaliza a bolsa.
A perspectiva da dívida pública portuguesa mantém-se particularmente negativa. Está inclusive a um passo de cair de escalão, já que o Outlook (ou perspectiva) da Standard & Poor's continua a ser negativo. Se isso acontecer, Portugal passará a ter um rating de "BBB+", igual ao da Grécia. Quanto à divida de curto prazo, o 'rating' português está agora na terceira posição, em A2.
A agência de 'rating' já havia cortado em Janeiro do ano passado o 'rating' de longo prazo da República Portuguesa de AA- para A+ e em Dezembro colocou a economia portuguesa sobre um Outlook negativo.
Esta decisão surge numa altura em que os mercados financeiros estão a penalizar Portugal, essencialmente devido aos receios de contágio vindos da Grécia. Neste grupo de risco encontram-se ainda países como a Espanha ou a Itália. Nas últimas semanas Portugal tem estado particularmente no centro das preocupações, quanto a um eventual incumprimento, elevando o 'spread' da dívida pública a máximos históricos.
Os responsáveis alemães foram os que mais reticências colocaram ao apoio à Grécia. Falamos de mais de 30 mil milhões de euros que serão emprestados pelos países do euro à Grécia, a que se juntam 15 mil milhões de euros que virão do Fundo Monetário Internacional. A Alemanha, responsável pela maior fatia do bolo, veio a público defender mais reformas e maior esforço à Grécia, mas o estado de convulsão social vivido nos últimos dias nas ruas da Grécia vem demonstrando que não será fácil recuperar a economia grega.
Na nossa próxima reflexão tentaremos perceber como funciona o rating da Standard & Poor's.
Até para a semana. Directo à Questão. |
|
|
Algumas Reflexões Sobre o Atraso Competitivo Português (III)
Quinta-feira, 13 de Maio de 2010
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
O atraso competitivo de Portugal é uma expressão que nos habituámos a ouvir e ler nos últimos anos e que assume uma conotação de um certo fatalismo à portuguesa, como se este nosso fado estivesse escrito nas estrelas por um Deus maior. Concluímos hoje a nossa reflexão sobre os factores históricos que condicionam o eterno atraso competitivo luso.
Eis-nos chegados a 1974 e ao mais importante marco histórico do passado recente português. A revolução de Abril, pondo cobro a uma forte concentração do poder económico num reduzido número de grupos económicos, prometia promover não só uma distribuição dos rendimentos mais igualitária como, através das nacionalizações, permitir acumulação de capital e reforçar a competitividade económica por via estatal. A verdade é que muitos dos objectivos foram irrealistas e as perturbações saídas da revolução provocaram inúmeros conflitos laborais com consequências bastante negativas. O aumento acentuado dos salários reais teve consequências na perda de competitividade de inúmeras unidades industriais, com a perda de produtividade e com consequentes perdas de vendas e de exportações. Destacam-se também a diminuição dos fluxos de turistas e das remessas de emigrantes e a fuga de capitais para o estrangeiro.
Apesar disso, este período fica definitivamente marcado como o início do alargamento da Segurança Social, da criação do Serviço Nacional de Saúde, da melhoria das infra-estruturas de transporte, saneamento e electrificação, importantes factores de desenvolvimento que puderam dotar o país de melhores condições para numa fase posterior aproveitar economias de escala e de proximidade. A aposta nas nacionalizações de empresas privadas veio a revelar-se ineficaz e, depois de 1986, verificou-se uma aposta no reforço da concorrência interna por via de uma crescente vaga de privatizações.
A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1986, inaugurou um período muito importante para a competitividade nacional. Sob um contexto internacional extremamente favorável, Portugal soube aproveitar algumas das vantagens de que dispunha. A média de crescimento até 1994 cifrou-se nos 4,4% e coincidiu com a resolução dos problemas de desequilíbrios externos (sobretudo no défice da balança de pagamentos) e na promoção da melhoria das condições de competitividade por via da eficiência dos factores produtivos. A estabilidade política ajudou ao aumento do nível de vida nacional, com ganhos nos termos de troca e uma evidente, mas sustentada subida dos salários e pensões, que não colocaram em causa o equilíbrio macroeconómico. A inflação desceu consideravelmente ao longo deste período, bem como a taxa de desemprego. A afluência de Investimento Directo Estrangeiro permitiu dotar as unidades produtivas nacionais de melhor know-how, de capital para investimento e o desenvolvimento de alguns sectores considerados estratégicos, como tão bem diagnosticou Michael Porter no seu estudo da economia nacional.
Tal como no chamado período de ouro da economia portuguesa, também nesta fase foi seguida uma estratégia de promoção das exportações sobretudo por via da desvalorização competitiva da moeda nacional. Esta desvalorização fomentou a competitividade por via dos baixos custos salariais praticados em Portugal face à maioria dos países membros da CEE, recorrendo ao instrumento cambial. Esta estratégia, apesar de servir os interesses da indústria exportadora, foi altamente penalizadora para as importações nacionais e originou uma perda pontual de rendimento disponível por parte das famílias com uma subida ligeira da taxa de inflação.
Com a assinatura do Tratado que instituiu o mercado único europeu e entretanto abdicando da sua moeda em favor do euro, Portugal estabelecia no final dos anos 90 do século passado uma nova orientação para a sua estratégia de competitividade. A perda de controlo sobre a taxa de juro e da taxa de câmbio elevou o orçamento nacional ao mais alto patamar enquanto principal instrumento de política económica.
Portugal enceta, nesta altura, um caminho cujos expoentes para a competitividade passaram a ser a promoção da qualificação dos seus recursos humanos, a aposta na inovação nos produtos e serviços e difusão do conhecimento, bem como a orientação para a concorrência pela qualidade e não tanto pelo preço. Sobretudo após a adesão de novos estados membros, do leste da Europa, a competitividade portuguesa é marcada por um confronto entre os modelos do passado, assentes em custos salariais reduzidos e na promoção de preços competitivos, e a promoção da excelência da sua criação de produtos e serviços inovadores baseados em mais valias das competências dos seus recursos humanos. Esta encruzilhada, num contexto de crise macro-económica à escala global, de regras apertadas em termos orçamentais por via das restrições do Pacto de Estabilidade e Crescimento e de divergências face ao crescimento com os restantes parceiros europeus, hoje mais do que nunca, coloca a competitividade nacional na ordem do dia em termos de prioridade estratégica.
Até para a semana. Directo à Questão. |
|
|
|
<< Início < Anterior | 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 | Seguinte > Final >>
|
| Resultados 1 - 9 de 111 |