Imprimir

O vinho Bonjardim, produzido na Quinta Albergue do Bonjardim no Nesperal, na União de Freguesias de Cernache do Bonjardim, Nesperal e Palhais venceu a terceira edição do Prémio Intermarché Produção Nacional (PIPN), na categoria Vinhos.

O concurso foi nacional e o prémio já foi entregue, numa cerimónia que decorreu no Instituto Superior de Agronomia, contando com a presença de Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Luís Capoulas Santos.
Os vencedores conseguiram reunir vários requisitos, como sendo a inovação, a sustentabilidade e o respeito pelas origens.
O negócio pretende ser familiar, sempre ajudando a economia local e este prémio vem cimentar esta posição.

Início conturbado à chegada

Wilhelmina Biemond e Hubertus Lenders chegaram ao Nesperal em setembro de 1989 durante a época da vindima. Depois de uma ronda pelo país, apaixonaram-se pelo centro de Portugal e adquiriram o Albergue do Bonjardim. Sem nada no bolso, apenas a vontade de fazer vinho, nas primeiras semanas os tempos foram duros fisicamente. A recusa da proprietária da quinta em fornecer dormida obrigou o casal Biemond e Lenders a dormir numa tenda. De vinho conheciam o cheio e o vazio dos copos, mas a vontade era tanta como o desejo, e por isso embarcaram na aventura de começarem a produzir vinho. Pediram ajuda e conselhos junto do Ministério da Agricultura e, apesar de a atitude ter sido classificada como “estúpida”, a ajuda foi dada em suporte de um livro da autoria de Octávio Pato. A partir deste suporte o casal fez a primeira colheita e o resultado deram-no a provar ao engenheiro que os havia recebido no Ministério da Agricultura. A resposta foi determinantemente negativa já que “segundo ele disse o vinho não prestava para nada”, lembra Hubertus. Incrédulos e chocados mandaram analisar o vinho que, reconhecem “era áspero e ácido”. Após novo contacto ficaram a saber que “no início este tipo de vinhos não prestava mas daria para guardar muitos anos”.

Cinco anos até ao reconhecimento

Apesar deste início conturbado e das dificuldades em convencerem diversas pessoas e organizações de que se podia fazer, em Cernache do Bonjardim, um vinho de qualidade, o casal não desistiu e com um hectare de vinha tentou fazer melhor e aprender. Fizeram-no numa escola em Anadia, leram livros, informaram-se e tiraram um curso em Bordéus. Investiram na remodelação da adega da Quinta e continuaram o trabalho.

O sonho ganhou outros contornos quando, cinco anos depois, “o Sr Mariano da Estalagem do Vale da Ursa nos pediu uma garrafa de vinho para uma prova”, recorda. Foram precisas poucas horas para que o hoteleiro encomendasse 180 garrafas para a referida iniciativa que iria decorrer no restaurante Ponte Velha. O vinho da já referida primeira colheita estava agora pronto para consumir e teve a melhor das aceitações em Santarém numa prova gastronómica, acompanhando os pratos de bucho e de maranho da Sertã.
Daí até à entrada na Rota dos Vinhos dos Templários foi um pequeno passo. Quinze anos depois o casal estava a reestruturar a vinha, e de um passaram para os atuais três hectares, onde vingam as castas Touriga Nacional, Fernão Pires, Baga, Syrah e Alvarinho.
Os tempos foram evoluindo e as mentalidades mudando. Sendo que esta região está atualmente inserida na denominada região vitivinícola Terras da Beira, Hubertus sente que um importante passo foi dado, no entanto o seu sonho de ver Cernache do Bonjardim como região demarcada ainda permanece. Na sua opinião esta zona tem um micro clima especial, com terras de xisto e um PH muito baixo, com sol e muita humidade, que favorece estas castas e origina um vinho “completamente diferente, de qualidade e com um paladar e caráter diferentes da restante região da Beira Interior”, acalenta.

Selo biológico prevalece em todas as produções

Chegaram com o conceito de agricultura biológica e ao fim de 27 anos continuam a evitar os produtos quimicos. Sendo que estão ligados à agricultura biológica tentam fazer um vinho “o mais nu que for possível”, ou seja a “naked gift of nature”. Deste modo “tentamos evitar ao máximo qualquer intervenção na vinificação”, sendo que utilizam apenas um pouco de sulfuroso, revela Lenders.
Devido a todo o processo de fabrico, os vinhos Bonjardim demoram três a 15 anos a desenvolver e combinam na perfeição com uma gastronomia mais intensa e encorpada.

A surpresa do Prémio do Internarché 2016

A senda dos prémios começou com uma medalha de prata no Estoril e outra no Mónaco, dadas ao vinho da nova produção de 2005, uma vez que a velha vinha havia sido substituída. O facto surpreendeu o casal pois “o vinho de uma vinha nova não tem corpo e capacidade para receber prémios”, diz Hubertus que, ainda assim, deve o feito ao fator biológico pois, “a produção nestes casos é mais reduzida e a concentração no mosto é mais alta”, motivo pelo qual a mesma vinha, em 2006 ganhou ouro, defende. Para o casal “é sempre uma aventura perceber como desenvolveu o vinho de cada ano. Saem todos da mesma família mas às vezes são irmãos, outras são primos”, descreve o proprietário.
O caminho vai-se fazendo com galardões e o orgulho em exibir o de 2016 é grande. Venceram a terceira edição do Prémio Intermarché Produção Nacional (PIPN), na categoria Vinhos. Apesar de possibilitar a venda, durante um ano, nas lojas da marca a nível nacional e em algumas a nível internacional, e de "toda a gente ficar a saber que no centro de Portugal se faz bom vinho", explica Wilhelmina, acima de tudo “este prémio, premeia o nosso conceito de produção com sustentabilidade, assente em três pilares: proteger o ambiente, desenvolver a economia local e ajudar a não danificar a vertente social”, sustenta Hubertus, ciente de que “o comprador sabe que, ao adquirir o produto está a apoiar a economia local e a ajudar o ambiente”. “Tentámos sempre voltar-nos para as raízes desta quinta e darmos uma mais-valia ao produto para aumentar a qualidade e incentivar a economia local, pois a vindima é feita com as pessoas de cá e seus familiares”, alimenta.
Na agricultura biológica as culturas são mais sensíveis e por isso as produções anuais não são grandes, logo os vinhos não irão abundar nas prateleiras dos supermercados. Devido às suas características, o casal aconselha a que seja bebido ou oferecido numa e para uma ocasião especial.


Biodiversidade: uma ajuda à cultura biológica

A Quinta do Albergue Bonjardim tem 12 hectares, dos quais três são de vinha. Wilhelmina e Hubertus não pretendem expandir mais, pois “o resto da área também suporta os restantes hectares. Na cultura biológica o importante é não ter uma monocultura, caso contrário atraíamos os insetos que atacavam as nossas culturas”, diz a proprietária.
Sendo o ambiente diversificado com “ervas, árvores, flores e animais, tudo isto atrai insetos que se espalham e provocam um equilíbrio natural. E isso é a base da agricultura biológica”, adianta.
O casal emprega três pessoas parcialmente “mas na vindima é uma festa. Convidamos os familiares. No final fazemos uma festa para celebrar. A vindima é o fim de um ciclo que começa em janeiro com a poda”, continua Hubertus.
Com uma produção anual de cerca de 12 mil litros, são engarrafadas 15 mil garrafas. Para atestar a qualidade reconhecida dos vinhos Bonjardim importa também reconhecer a qualidade da adega. No Albergue ela é antiga, com paredes de 70 cm que mantém a temperatura. Somam-se os lagares antigos, algo raro nos dias de hoje neste tipo de produção, com fermentação a céu aberto. Estes fatores também originam outro tipo de vinho e ajudam a dar autenticidade aos do Nesperal. Ali também a pisa é feita à moda antiga, com suor humano. Os donos convidam os turistas e os hóspedes para pisarem as uvas com os pés e muitos dizem que é uma terapia, física e psicológica.

Alvarinho na Beira é possível

Há alguns anos Hurbertus quis implementar a casta Alvainho em Cernache. Ao fim de alguns anos garante que se “adaptou perfeitamente e tem muito grau. Temos que ter cuidado para não termos um vinho com grau a mais. O nosso tem 12 a 13. Tentamos fazer um casamento entre a casta de cá, o Fernão Pires que dá um vinho encorpado e o Alvarinho, que dá o frutado a campo e flores”, desvenda, acrescentando que “o nosso vinho é leve e frutado mas quando se bebe tem corpo. Por isso é gastronómico e aguenta bem os condimentos de uma refeição”.
No Albergue a vindima ainda continua. “Este ano o tempo está bom e não estamos com muita pressa em vindimar”, diz, garantindo que este ano “temos uma colheita super concentrada, com uma cor muito intensa, com mais de 14,5 graus de álcool. Vai ser um vinhão”, termina.

Imagem tradicional dignifica as origens

Um rótulo tradicional, com um papel o mais simples possível, é a descrição que Wilhelmina faz da imagem das garrafas. Continuando a abraçar o conceito biológico, também as caixas não apresentam cor, porque “achamos que a própria natureza é capaz de decorar os nossos produtos”, reforça.
O nome entretanto mudou e do inicial “Albergue Bonjardim” optaram apenas por “Bonjardim”.
Sentindo e usufruindo da felicidade que os acompanha diariamente, o futuro continuará a ser feito por cá, com os atuais hectares pois não pretendem massificar o negócio. Os seus dois filhos estudam na Holanda e, apesar do casal considerar este negócio familiar e de os filhos fazerem parte de todo o conceito já descrito, Wilhelmina e Hubertus garantem que não vão interferir nas suas escolhas. “Eles farão da vida o que quiserem”, diz o pai, dedicando aos filhos o maior de todos os prémios: a vida.

ofertaB baseStandFrigi ofertaB baseStandFrigi

Av. Dr. Abílio Marçal, Lote 1 B 6100-267 Cernache do Bonjardim

geral@radiocondestavel.pt

Telefone: Geral: 274 800 020

Redacção: 274 800 028/7

Tempo Cernache Do Bonjardim


Estatísticas

Hoje
7031
Ontem
17841
Este mês
257588
Total
8836581
Visitantes Online
22